Programas de treinamento corporativo geram mais valor do que muitas empresas percebem. Pesquisa apresentada na Harvard Business Review em 2026 mostra que capacitar equipes aumenta não apenas a produtividade da base, mas também o desempenho dos gestores, liberando tempo para decisões estratégicas e ampliando o retorno organizacional do investimento em desenvolvimento.
Durante anos, programas de treinamento corporativo foram tratados como um custo necessário, mas de retorno difícil de mensurar. Embora empresas invistam valores expressivos no desenvolvimento de suas equipes, muitos líderes seguem questionando se o impacto justifica o tempo, o orçamento e o esforço organizacional envolvidos. A resposta, cada vez mais sustentada por evidências, é que o problema não está no treinamento em si, mas na forma limitada como seu valor é avaliado.
Em janeiro de 2026, Ben Rand apresentou na Harvard Business Review os resultados de uma pesquisa conduzida por Christopher T. Stanton, professor da Harvard Business School, que lança uma nova luz sobre essa discussão. O estudo demonstra que o treinamento não apenas aumenta a produtividade dos profissionais diretamente capacitados, mas gera um efeito indireto relevante, e frequentemente ignorado, sobre o desempenho dos gestores.
O retorno do treinamento não se limita a quem participa dele. Ele se multiplica ao longo da hierarquia.
Quando capacitar a base libera a liderança
A pesquisa analisou um programa intensivo de capacitação de 16 semanas realizado em uma agência governamental colombiana. O foco estava em habilidades práticas, como definição de metas, uso avançado de ferramentas analíticas, comunicação escrita e fundamentos técnicos da função.
Os resultados foram objetivos. Após o treinamento, os profissionais da linha de frente passaram a entregar cerca de 10% mais trabalho em comparação com o mesmo período do ano anterior. No entanto, o dado mais revelador apareceu quando os pesquisadores analisaram o comportamento dos gestores.
Funcionários mais capacitados passaram a demandar menos apoio direto de seus supervisores. Houve uma redução significativa no volume de e-mails e pedidos de ajuda enviados aos gestores, o que liberou tempo para que esses líderes se concentrassem em atividades de maior valor estratégico.
O efeito invisível sobre a produtividade gerencial
Com menos interrupções operacionais, os gestores diretamente conectados às equipes treinadas conseguiram aumentar sua própria produtividade. No estudo, esses líderes passaram a cumprir até 3% mais metas estratégicas, percentual que chegou a cerca de 8% entre aqueles que trabalhavam mais de perto com os profissionais capacitados.
Esse efeito indireto representou quase metade do retorno total do programa de treinamento. Em outras palavras, uma parcela significativa do valor gerado não veio apenas do aumento da produtividade individual, mas da reorganização do tempo e da atenção da liderança.
Esse achado desafia a lógica tradicional de avaliação de programas de desenvolvimento, que costuma medir retorno apenas com base no desempenho dos participantes diretos.
Treinamento como elevação do nível decisório
Na prática, o impacto mais profundo do treinamento não está apenas na execução mais eficiente, mas na qualidade das decisões que deixam de escalar. Quando colaboradores ganham autonomia, clareza técnica e segurança para resolver problemas, a organização reduz retrabalho, diminui dependência excessiva da liderança e cria fluidez operacional.
Essa leitura dialoga diretamente com a visão de Camilla Souza, Head de Desenvolvimento Humano e Organizacional da deBernt, que observa que o verdadeiro valor do desenvolvimento aparece fora do radar tradicional de métricas operacionais.
“O efeito mais relevante do desenvolvimento raramente aparece na execução imediata. Ele se manifesta na qualidade das decisões que passam a ser tomadas sem escalonamento, sem retrabalho e sem dependência excessiva da liderança. Treinar equipes é, na prática, elevar o nível decisório da organização como um todo.”
A afirmação ajuda a traduzir o impacto invisível capturado pela pesquisa. Treinamento bem desenhado não apenas melhora a performance individual, mas reconfigura como decisões são distribuídas dentro da organização.
Impactos sobre retenção e sustentabilidade da força de trabalho
O estudo também identificou efeitos relevantes sobre permanência e progressão de carreira. Profissionais treinados apresentaram maior permanência na organização ao longo dos anos seguintes e tiveram probabilidade significativamente maior de promoção.
Isso reforça que o investimento em capacitação atua simultaneamente sobre desempenho, engajamento e sustentabilidade organizacional. Ao desenvolver a base, a empresa fortalece seu pipeline interno e reduz a necessidade de intervenções corretivas constantes por parte da liderança.
Por que líderes subestimam o retorno do treinamento
Uma das principais conclusões da pesquisa é que muitas empresas subestimam o valor do treinamento porque não contabilizam o custo oculto da dependência excessiva da liderança. Sempre que um gestor interrompe atividades estratégicas para resolver problemas recorrentes da operação, há perda de foco, qualidade decisória e capacidade de antecipação.
Quando o treinamento reduz essa dependência, ele não apenas melhora a performance da base, mas reposiciona o papel do gestor, deslocando-o da execução reativa para a tomada de decisão estratégica.
Implicações para o desenho organizacional
Os achados levantam uma questão mais ampla sobre estruturas organizacionais. Se equipes mais capacitadas demandam menos supervisão direta, o desenho da hierarquia, o número de gestores e o próprio modelo de liderança podem ser revistos ao longo do tempo.
Com o avanço da inteligência artificial e de soluções escaláveis de aprendizagem, esse efeito tende a se intensificar. Organizações que investem de forma consistente no desenvolvimento da base criam condições para estruturas mais enxutas, líderes mais estratégicos e decisões mais qualificadas.
Treinar não é custo, é reposicionamento da liderança
A principal mensagem para CEOs e diretores é clara. O treinamento não deve ser tratado apenas como uma iniciativa de desenvolvimento de pessoas, mas como uma alavanca de eficiência organizacional e qualidade da liderança.
Ao liberar o tempo dos gestores, reduzir fricções operacionais e elevar o nível decisório das equipes, o treinamento gera um retorno que se propaga por toda a organização. Ignorar esse efeito é subestimar um dos investimentos mais estratégicos disponíveis para empresas que buscam desempenho sustentável em ambientes cada vez mais complexos.